A menina da rádio
Extrovertida, alegre, bem-disposta. Seis anos depois, Paty Faria, a menina bonita da Rádio Luanda está de regresso com o novo álbum Baza, Baza. Está prestes a terminar o curso de Direito. Tem uma linha de produtos com o seu nome. Conheça melhor a niegra calient.Nzaji estava a tocar quando invadimos o estúdio de Patrícia Faria na Rádio Luanda. Deixámo-la terminar a conversa com os ouvintes, no seu estilo único, animado, quase familiar, que os seus ouvintes gostam. Falamos longamente, sem tabus, entre muitos sorrisos, numa conversa animada que percorreu as várias facetas de Patrícia Faria na rádio, nos estudos, na música… e no amor. Ficámos a saber que a negra caliente — tal como é conhecida — da Rádio Luanda está só, desimpedida e à espera de quem se atreva a conquistá-la. Nas suas músicas canta sempre em kimbundu, domina bem a língua? Canto em kimbundu porque desde miúda habituei- -me a cantar nesta língua. Sempre tive uma curiosidade enorme de aprender a falar kimbundu, tal qual, ou melhor, do que canto. Consegue então conversar em kimbundu...
Nem tanto. Vou percebendo. Vou construindo uma frase ou outra. Porque tenho de perceber aquilo que canto. Mas, infelizmente, para meu desgosto, não falo fluentemente o kimbundu, mas acredito que com persistência e força de vontade hei-de aprender a falar a língua. Tal como gostaria de aprender o kikongo e o umbundu, línguas que, no meu entender, têm uma musicalidade muito grande. Quem ouça falar em Patrícia Faria, e esteja na casa do 30 anos, lembra-se da menina pequenina das Gingas. Foi essencial a passagem pelo grupo, ou acha que a fase seguinte é que revelou a verdadeira cantora? As Gingas foram a minha base, a minha escola. Nenhum de nós pode vislumbrar o futuro se não olhar para de onde veio. Tudo quanto sei e aprendi em termos de expressão corporal, canto e dança foi--me dado nessa escola que foi as Gingas. Guardo boas recordações do grupo e tenho o maior carinho pelas minhas colegas de profissão. Mas a fase agora é outra. Quem a ouve na rádio percebe que é uma pessoa animada, cheia de boa disposição. É sempre assim no dia-a-dia? Sou uma pessoa muito extrovertida. Sempre fui assim. Sempre me caracterizei por esta alegria, por esta extroversão. Desde miúda, raramente me intimidava com o facto de estar entre pessoas mais velhas. Raramente me sentia acanhada se tivesse de cantar ou dançar. Se bem que também existem momentos em que não estou tão eufórica como as pessoas estão habituadas a ver-me. E isso nota-se?
As vezes sim. Além de extrovertida, considero-me uma pessoa transparente. São poucas as vezes em que consigo disfarçar as alterações no meu estado de espírito. Transmito e passo para as pessoas aquilo que eu realmente sou. E quando estou macambúzia, também passo isso para os outros. Os seus ouvintes já se queixaram alguma vez? Nunca. Por incrível que pareça, quando estou diante de um microfone tudo passa. Posso estar muito triste, posso, eventualmente, ter saído de uma situação que tenha mexido com o meu íntimo, com os meus sentimentos, com as minhas emoções, mas quando estou diante do microfone tudo passa. Isto é uma surpresa para os meus amigos e as pessoas que me são mais íntimas. O microfone é a terapia ideal. É óbvio que para quem me ouve na rádio posso parecer não ter problemas, mas tenho-os, como todo o mundo tem. Como é que vê o seu futuro na rádio… Eu gosto do entretenimento, sempre gostei. Penso que isso se deve ao “à vontade” que tenho em palco, à empatia que estabeleço com o público quando faço os meus espectáculos. Tenho alguma curiosidade quanto aos serviços informativos, mas quando faço os meus programas de entretenimento sinto-me bem mais interactiva, bem mais parte da vida de quem me ouve, consigo penetrar nos sentimentos, nas emoções das pessoas e isso é algo que me faz bem. Sentir que consigo influenciar o estado de espírito de alguém que mesmo que esteja triste consegue soltar nem que seja uma gargalhadazinha, esboçar um sorrisozinho. Isso faz-me feliz e sinto que cumpro a minha missão enquanto comunicadora. Rádio, música, moda. Qual delas prefere? Tenho a rádio, música, moda e escola. Mas acho que se tivesse de retirar uma delas, acho que a que mais
falta me faria talvez fosse a música, porque eu respiro música. Vê-se mais a viver da música ou da rádio? Não coloquemos as coisas nestes moldes. Até porque, como estou no final do curso, tenho de encarar o exercício da actividade para a qual me formei durante estes cinco anos, que é o Direito. Estou num momento da minha vida em que tenho de fazer escolhas, porque é impossível fazermos tudo muito bem e com a perfeição que estas áreas vão exigir. Mas a música é uma das actividades que não penso, tão cedo, ou nunca, riscar da minha vida. A música é, com certeza, a actividade primordial, o ar que respiro. Gosto de cantar. Faz parte da minha vida.
Fica-se rico cantando em Angola? É como qualquer actividade desde que saibamos ser bons gestores. É como tudo. Se formos bons naquilo que fazemos e se conseguirmos ser inovadores, logicamente que poderemos auferir dos frutos dessa actividade. A carreira de um músico é muito melindrosa, porque vivemos do sucesso dos nossos trabalhos. Se não temos sucesso não auferimos rendimentos e como tal não podemos viver da música. As mulheres que cantam em Angola, ainda têm razões de queixa por ganharem menos que os homens? Isso é muito relativo e tem a ver com questões contratuais. Cada um de nós deve saber bater o pé para aquilo que realmente vale. Acho que não passa por um exercício comparativo entre o que se pode pagar a um homem e o que se pode pagar a uma mulher. Tem a ver com as nossas convicções, com a nossa forma de valorizar o trabalho que realizamos.
Os nossos artistas, quando gravam, queixam-se da falta de apoios. Mas não os ouvimos falar em tournées pelo país, onde poderiam ganhar mais dinheiro. Porque é que os músicos não se aventuram mais pelas estradas do país? O nosso país vai criando cada vez mais condições para que possamos andar de Cabinda ao Cunene. A ideia de que os músicos vão pouco às províncias não está perto da verdade. Hoje em dia os músico já se esforçam para chegar a todo o território nacional. Isso tem muito a ver, também, com as salas de espectáculos, e, é claro, com a iniciativa dos empresários. Tem de haver essa iniciativa porque o músico, por si só, não tem como andar pelo país inteiro com uma caravana. É necessário que exista algum suporte financeiro.
Quando se anuncia um espectáculo de um determinado músico, depois vemos que ele surge em palco com uma lista infindável de participações, muitas vezes em playback. Isso não mata a apetência das pessoas? Em vez de vermos um músico vemos logo todos de uma vez... (Risos). Isto tem a ver com a política do promotor do espectáculo. Os músicos não são os culpados. E os músicos não pensam que isso os pode desgastar? Alguns não têm espectáculos seus mas aparecem, várias vezes por ano, com pequenas participações nos espectáculos dos outros. Isso não é mau para a imagem? Tudo isso tem a ver com a estratégia individual de cada artista. O músico pode gerir melhor as suas aparições. Mas também é verdade que muitas vezes o músico quer aproveitar a altura em que está em alta para somar rendimentos. Há que olhar também para este lado. Mas como eu digo, e acredito, o dinheiro não é tudo. O sucesso da nossa actividade artística passa pela gestão que fazemos da nossa imagem. No palco, faz playback ou actua com banda? Com banda. Só em situações muito excepcionais é que flexibilizo. Os espectáculos em playback não permitem explorar o rendimento total do artista. Consigo ser muito mais produtiva num espectáculo ao vivo. Voltando a si, cozinha? (Risos). Essa é a tal parte… cozinho muito pouco, porque estou mais envolvida na minha actividade profissional do que nas tarefas caseiras. Mas sabe cozinhar? Sei fazer uma coisinha ou outra. Nunca deixei ninguém passar fome. Mas não sou a “Dona Benta” da cozinha, nem uma “mamã Koiba” que mexe com os pratos todos. Uma boa dona de casa, portanto… Com um parceiro certo e compreensível, facilmente nos daríamos bem.
E quem é o tal parceiro certo e compreensível? Não tenho (risos). Sou solteira, não tenho namorado, por enquanto… A Patrícia Faria é uma das mulheres mais conhecidas de Angoal. Com tantos admiradores como é que não tem namorado? (Risos). Olhe que às vezes até eu me surpreendo, mas há quem diga que a minha visibilidade pública “afugenta”. As minhas amigas dizem que talvez a maneira como me posiciono relativamente a certas questões relacionadas com os homens, fazem com que eles se sintam intimidados.
Ou será que se tem divertido a dar tampas? Não. Nem por isso, porque eu trabalho muito e, por incrível que pareça, não tenho tido muito tempo para estar em contacto com o sexo oposto. Confesse lá, quantas mensagens recebe no seu telefone por dia? (Risos). Eu não sou muito assediada. Acho que o facto de ser uma figura pública intimida muita gente. Nem todos tem a coragem e a ousadia de interpelar uma figura pública e de expor os seus sentimentos. Acredito que os homens se sintam intimidados, devido a essa minha visibilidade. Para meu prejuízo... Está a ser grande o prejuízo?
De certa forma sim (risos). Mas nada que o tempo não resolva. Já andou atrás de alguém? Eu sou uma pessoa um bocado tímida. E o facto de ser uma figura pública limita um bocadinho os meus passos em determinadas manifestações. Nisso sou um bocadinho mais reservada.Por isso as coisas ficam mais dificeis. Aliás, na verdade não tenho coragem para paquerar. Eu sou mesmo uma mulher feita à moda antiga. Deixo essas manifestações para os homens. Acho que são os homens quem tem de tomar a iniciativa. Ainda penso assim. Acredita em Deus?
Sou cristã, acredito que existe um Deus superior e acredito que sem ele a vida não teria sentido algum. Deus é o nosso companheiro fiel, é aquele companheiro sobre o qual não recaem suspeições se algum dia nos vai trair. Que me ajuda a enfrentar os desafios do dia a dia, me ama e protege, até naquelas situações em que menos dou conta. Fala como alguém que vai igreja todos os dias … Todos os domingos tento encontrar cumplicidade e amor em Deus. E tento encontrar na bíblia, um livro milenar, a resposta para muitas situações actuais. Já se sentiu difamada? Sim. Já ouvi muitas coisas a meu respeito. Há quem ache que eu seja noiva de alguém. Há quem diga que eu tenho filhos. Enfim, quem anda à chuva é para se molhar e as figuras públicas estão sujeitas às especulações. Mas muitas vezes senti-me triste pelo facto de algumas pessoas persistirem em veicular coisas que não são verdade. A fama sem proveito... Exactamente. Isso faz com que muitas pessoas não se aproximem de mim, por pensarem que, de facto, eu já estou comprometida com alguém. Na realidade a Patrícia é uma jovem pacata, que tem uma vida normal como todas as outras. Se um dia alterar o meu estado civil, ou se tiver filhos, será com muito carinho que vou compartilhar isso com os meus fãs. Eles merecem isso. Estamos perto do dia da mãe. Quantos filhos é que Patrícia Faria gostaria de ter? Eu venho de uma família grande. A minha mãe teve seis filhos e eu gostaria de ter quatro. Gostaria de ter dois, mas contando com os eventuais acidentes, quatro parece-me ser um bom número. Se vierem mais serão sempre bem-vindos (risos). Tem problemas em dizer a sua idade? Sem complexo nenhum. Nasci a 3 de Dezembro de 1981. Faço 28 anos. Gosta de ler? Sim. Mas a minha actividade de estudante faz com que não consiga ler tanto — outro tipo de literatura que não a técnica — como desejaria. Até porque sou uma fã dedicada de escritores angolanos, Como eu canto a vivência do nosso povo, nada melhor do que ler Óscar Ribas ou Pepetela. O Ondjaki é outro escritor que tem chamado a minha atenção. Ele é um pouco mais disparatado (com muitas aspas) mas tem um estilo literário que eu gosto. Sinto o mesmo prazer na leitura do que com Óscar Ribas ou Uanhenga Xitu. É interessante ver um jovem despontar assim e começar a ter projecção internacional. Está na Rádio Luanda. Esta é a sua cidade preferida? Luanda é a cidade que me viu nascer, que me viu crescer, a cidade que me deu oportunidades, a que abre os ouvidos todos os dias quando eu falo ao microfone, a cidade que me atura, onde eu encontro o porto seguro. É aqui que está maior parte da minha família. Luanda é, com certeza, apesar dos “pesares”, a minha cidade eleita. Que “pesares”eliminaria? A falta de civismos de alguns citadinos, a falta de iniciativa relativamente à preservação, ao cuidado que devemos ter com a nossa cidade. Depende de nós fazer uma cidade melhor. Em vez de apontarmos o problema devemos ser a solução. O que é que mais gosta na cidade de Luanda?
Quando está calminha, quando há feriados, quando se pode descansar (risos), quando a maior parte das pessoas sai para as províncias e a cidade fica na acalmia. Luanda só para si... É. A nossa capital é a melhor das melhores. Ouve outras rádios? Quando posso oiço, mas tenho uma responsabilidade maior que é ouvir a minha estação, acima de tudo.
Conhece outras vozes fora da Rádio Luanda? Sim, reconheço outras vozes. Temos de ter a coragem de tirar o chapéu para grandes vozes do nosso jornalismo. Amélia Mendes, por exemplo, é uma das vozes que já passou por aqui e que tenho como uma grande referência. O próximo disco como será? Semba a cem por cento. O semba é a minha raiz. É o que eu gosto de fazer. Eu costumo dizer que o semba é a melhor música do planeta. Quantos convidados? Temos uma ficha técnica muito grande que ocupa várias folhas. Trabalhamos arduamente para que tivéssemos um bom disco. Fui buscar grandes profissionais para que isso pudesse acontecer. Foi gravado em Luanda? Fizemos gravações em Portugal, Espanha, fomos a França. Acredito que essa rotatividade deu a qualidade ao trabalho, mas o veredicto final será dado pelos fãs. Kimbundu sempre? Kimbundu e outras línguas. Vamos ter um disco diversificado, onde as pessoas vão poder matar as saudades da Patrícia Faria.
Novo álbum a 10 de Maio O segundo disco de Patrícia Faria, intitulado Baza Baza, estará à disposição do público no dia 10 de Maio, data em que haverá uma sessão de venda pública no Parque da Independência, em Luanda. Seis anos depois de Eme Kya, Patrícia Faria esclarece que “a ideia foi fazer algo diferente, mais picante em termos rítmicos. Depois do êxito do primeiro disco, a exigência do público passou a ser maior”, justifica. Além do semba, o seu estilo de eleição, haverá um sukusse produzido pelo angolano residente em Paris, Miguel Yamba e interpretado na companhia de Yuri da Cunha. O álbum inclui igualmente uma nova versão da música “Kimbemba”, de Teta Lando, fazendo dupla com o cantor português Luís Represas. Com 13 temas, o novo disco de Patrícia Faria foi produzido em Angola, Portugal, Espanha e França e contou com as participações de Yuri da Cunha e Sandokan. Na produção, a artista recorreu aos serviços de Paulo Flores, Nelo Paim, Betinho Feijó, Bonga, Filipe Mukenga, Filipe Nzau e Kizua Gourgel. Lançada no mundo da música enquanto integrante do grupo feminino “As Gingas do Maculusso”, Paty Faria enveredou pela carreira a solo, com o lançamento, a 21 de Fevereiro de 2003, da sua primeira obra discográfica. O álbum recebeu vários prémios em 2003: “Melhor Marketing Musical” (da Escola de Marketing), “Voz de Ouro” e “Voz do Ano” (da Casa Blanca Produções), Vencedora do “Top dos Mais Queridos”( da RNA), título nunca alcançado por vozes femininas. Conquistou ainda o título de “Melhor Produção Discográfica”, “Voz Feminina do Ano”, “Semba do Ano “(Top Rádio Luanda) e “ Melhor Interprete Feminina do Ano” (Moda Luanda).
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